Obesidade é segunda principal causa de morte no mundo, segundo Abdon Murad Júnior


"A segunda principal causa de morte no mundo é um problema multifatorial, que precisa ser combatido em diversas frentes." Explica Abdon Murad Júnior.

Mesmo que estudos avancem em relação aos tratamentos contra doenças desafiadoras, como o câncer por exemplo. O homem atual se vê ameaçado por um elemento sem o qual não se vive: a comida industrializada.

Mas para a sobrevivência de todo o ser humano, o ideal são alimentos saudáveis. E atualmente, essa realidade está muito longe.



Segundo Abdon Murad, a epidemia de sobrepeso/obesidade já afeta 39% da população adulta e 18% das crianças e adolescentes entre 5 e 18 anos, com consequências consideradas devastadoras para a saúde.

Algumas estimativas indicam que o excesso de peso é a segunda causa de morte no mundo, perdendo apenas para as doenças associadas ao tabagismo.

Com a maioria das estratégias de contenção do problema até agora infrutíferas, especialistas, governos e associações buscam novas soluções capazes de, ao menos, reduzir parte dele.


A Organização Mundial  da Saúde (OMS), que desde 2004 tem ações específicas de combate à obesidade, agora declarou guerra à gordura saturada, aquela presente em alimentos de origem animal.

"Com base em 15 anos de produção científica, a ingestão de gordura por crianças e adultos por dia deveria representar, no máximo, 10% das necessidades diárias." Complementa Abdon Murad Júnior.

Dessa forma, um homem saudável com recomendação de 2,5 mil calorias por dia consumiria 250 calorias na forma de gordura saturada, o que daria um pouco menos de 30g. Essa é a quantidade de gordura presente em 50g de manteiga, em 130-150 gramas de queijo ou em um litro de leite integral.

Gorduras saturadas e gorduras trans são de particular preocupação devido à correlação entre alta ingestão e risco aumentado de doenças cardiovasculares.

Setenta e dois por cento das 54,7 milhões de mortes anuais de pessoas com menos de 70 anos são provocadas por essas enfermidades.

Ao mesmo tempo, a organização alerta que menos de 1% das calorias deve vir das gorduras trans, responsáveis, sozinhas, por 500 mil óbitos por ano.

* O sódio como inimigo:

Altos níveis de ingestão de ácidos graxos saturados e trans estão correlacionados com o aumento do risco de doenças cardiovasculares, principal causa de mortalidade entre as doenças crônicas não transmissíveis (DCNT), que, atualmente, representam 74% do total de mortes no Brasil.

Desse modo, medidas que incentivem a redução no consumo de gorduras saturadas e trans, associadas a recomendações de ingestão de alimentos saudáveis e incentivo à atividade física, são estratégias que podem ter impactos positivos na saúde pública.

Reduzir a quantidade de ingredientes do cardápio diário e do preparo de industrializados tem sido uma das estratégias adotadas por países como o Brasil, que assinou, em 2011, um acordo com a Associação Brasileira das Indústrias da Alimentação (Abia) para reduzir o teor de sódio dos produtos alimentícios.

Desde então, foram retiradas 17 mil toneladas do elemento químico da dieta dos brasileiros, segundo o Ministério da Saúde. Há um ano, a pasta fez uma nova parceria com a Abia para redução voluntária de níveis de sódio de pães, bisnaguinhas e massas instantâneas até 2020.


As políticas públicas de combate à obesidade apresentam resultados conflitantes. Nos Estados Unidos, a oferta de alimentos mais saudáveis nas escolas apresentou um desperdício acima de 80%.

A oferta de supermercados ‘saudáveis’ em bairros mais pobres dos EUA, na maior parte das vezes, não melhorou o comportamento alimentar daquela população.

Por outro lado, no México, a sobretaxação de refrigerantes resultou em uma redução importante do consumo desse produto”, observa (leia artigo nesta página).


* Problemas genéticos e obesidade

O problema é que, de acordo com os especialistas, a obesidade não pode ser atacada em uma só frente, pois envolve múltiplos fatores — inclusive, genéticos, menciona o Dr. Abdon Murad Júnior, do CFN, lembra que, por trás do excesso de peso, há causas biológicas, ecológicas, econômicas e sociais.

Controlar e reverter a situação exige atuação conjunta dos diferentes setores do governo e participação social.

Como parte das soluções, uma equipe de pesquisadores da Universidade de Liverpool sugere reduzir a quantidade de alimentos das embalagens, indo na contramão da tendência de agigantar as porções, como acontece, por exemplo, com refrigerantes e pipocas vendidos em cinemas.

Em um estudo conduzido no Instituto de Psicologia da Universidade, buscou-se saber se a oferta de porções menores altera a percepção do consumidor sobre o tamanho “normal” que um produto deve ter, fazendo com que, no futuro, ele passe a comprar e ingerir quantidades mais modestas que o habitual.

A pesquisa foi feita em três partes, sendo que, na primeira delas, os participantes foram divididos aleatoriamente em grupos, servidos com quiche e salada nas versões grande ou pequena.

Os voluntários não sabiam que o objetivo real do experimento tinha relação com o tamanho dos alimentos. No segundo teste, eles deviam se servir o quanto quisessem dos mesmos pratos do dia anterior.

No último, feito uma semana depois, os participantes eram questionados sobre o tamanho de porção que preferiam.

Os resultados mostraram que, quando servidos inicialmente com porções menores, as pessoas associam aquela quantidade ao que seria um tamanho normal de comida. Assim, passam a escolher comer menos.

Isso indica que, se o tamanho dos alimentos disponíveis comercialmente for reduzido, essas porções menores e mais apropriadas podem recalibrar a percepção do que é uma quantidade normal de comida.

Já se sugeriu anteriormente que encolher o tamanho das porções de industrializados pode ser uma estratégia para reduzir o consumo excessivo de alimentos e, consequentemente, a obesidade em nível populacional.

A epidemia da obesidade gera gastos atuais perto de meio trilhão de dólares (por estimativas recentes da Organização Mundial da Saúde, começou a reduzir a expectativa de vida em alguns países (em especial nos Estados Unidos da América), e pode ser a grande causa de uma falência de todos os tipos de sistema de saúde atuais em 15 a 20 anos, devido às epidemias de doenças decorrentes da obesidade.

Não obstante, Abdon Murad Júnior salienta que a obesidade também apresenta diversas associações a princípio inesperadas, como aquecimento global e o crescimento da poluição. Por isso, a prevenção da piora destes dois desastres naturais também passa pela contenção da obesidade. 

Alguns trabalhos recentes têm mostrado que a obesidade está começando a estagnar. Porém, a sua prevalência está parando de crescer lá no alto, ou seja, estagnar está longe de ser suficiente, o que devemos é derrubar essa curva da forma mais íngreme possível, se quisermos evitar uma catástrofe humana, sem qualquer exagero. 

Desta forma, políticas públicas em obesidade devem ser urgentemente discutidas e implementadas, e apresentam atualmente diversos caminhos:

1. Sobretaxar alimentos com adição de açúcar branco, farinha branca, gordura saturada, refrigerantes, entre outros;

2. Subsidiar alimentos saudáveis (hortaliças, legumes, frutas, alimentos 100% integrais, carne branca);

3. Campanhas maciças de conscientização da obesidade, em proporções muitas vezes maior do que existe hoje;

4. Aumento de oferta de alimentos saudáveis em mais fácil acesso a toda a população;

5. Proibição da propaganda e de marketing de alimentos calóricos e não saudáveis;

6. Educação médica para todos os profissionais da área, parar que todos estejam aptos a tratar devidamente, porque somente 2% dos pacientes com obesidade recebem tratamento hoje; dada a altíssima prevalência de sobrepeso e obesidade, já não se trata mais de uma doença a ser abordada por especialistas, mas sim por todos os médicos.

Estas possibilidades não são excludentes; pelo contrário, devem agir em conjunto pois somente desta forma teremos um combate possivelmente eficaz contra obesidade. 

Como exemplo citado por Abdon Murad Júnior, no início de 2018, o Chile apertou o cerco contra a indústria alimentícia, ao barrar o marketing infantil e a obrigar a colocação de avisos bem destacados quando o alimento contiver alto teor calórico, de açúcar ou de gordura.

Os resultados científicos de políticas públicas em obesidade infelizmente foram controversos. Nos Estados Unidos, a oferta de alimentos mais saudáveis nas escolas apresentou um desperdício acima de 80%.

A oferta de supermercados "saudáveis" em bairros mais pobres dos EUA na maior parte das vezes não melhorou o comportamento alimentar daquela população. Por outro lado, no México a sobretaxação de refrigerantes resultou em uma redução importante do consumo deste produto. 

Além dos resultados conflitantes, existem diversos obstáculos para a implementação desta política, que incluem o lobby da indústria alimentícia, a dificuldade de classificação do que é um alimento "apropriado" e saudável, a resistência da própria população.
Principalmente com obesidade, que em grande parte apresenta uma relação emotiva e química com a comida de alta densidade calórica, a quebra de paradigmas, incluindo a de que trata-se de impedir o acesso a um direito universal (o alimento), entre muitos outros. 


Para Abdon Murad Júnior, o caminho para conter a epidemia da obesidade deve ser semelhante aos caminhos tomados contra o tabagismo, cuja conscientização progressiva dos governos e das populações foram permitindo condutas cada vez mais rigorosas contra o tabaco.

Veja, se logo no início das campanhas anti-tabagismo, quando a conscientização ainda não era plena, apresentassem propostas de medidas extremas, como apresentar imagens degradantes dos efeitos do cigarro nas caixas dos maços, jamais seriam aceitas.

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